"Partout je vais je trouve un poèt a été là avant moi."(S.Freud)
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abril 03, 2012

Um toque de Neruda


Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.

(Pablo Neruda)

janeiro 15, 2012

Poema que Aconteceu




Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.

[Carlos Drummond de Andrade]

** Uma regalo para o Domingo que aconteceu e se foi.**.

maio 19, 2010
















Traduzir-se



Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?


FERREIRA GULLAR
De Na Vertigem do Dia (1975-1980)

novembro 01, 2009

Não me Peçam Razões...

Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.

Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.

Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,

tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.


Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?


Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.


Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.


Carlos Drummond de Andrade


agosto 04, 2009

POÉTICA I

De manhã escureço

De dia tardo

De tarde anoiteço

De noite ardo.

A oeste a morte

Contra quem vivo

Do sul cativo

O este é meu norte.

Outros que contem

Passo por passo:

Eu morro ontem

Nasço a manhã ã

Ando onde há espaço:

- Meu tempo é quando.

(Vinicius de Morais)


junho 27, 2009

Baiser... Beijo!

Baiser

Quand ton col de couleur rose

Se donne à mon embrassement

Et ton oeil languit doucement

D'une paupière à demi close,

Mon âme se fond du désir

Dont elle est ardemment pleine

Et ne peut souffrir à grand'peine

La force d'un si grand plaisir.

Puis, quand s'approche de la tienne

Ma lèvre, et que si près je suis

Que la fleur recueillir je puis

De ton haleine ambroisienne,

Quand le soupir de ces odeurs

Où nos deux langues qui se jouent

Moitement folâtrent et nouent,

Eventent mes douces ardeurs,

Il me semble être assis à table

Avec les dieux, tant je suis heureux,

Et boire à longs traits savoureux

Leur doux breuvage délectable.

Si le bien qui au plus grand bien

Est plus prochain, prendre ou me laisse,

Pourquoi me permets-tu, maîtresse,

Qu'encore le plus grand soit mien?

As-tu peur que la jouissance

D'un si grand heur me fasse dieu?

Et que sans toi je vole au lieu

D'éternelle réjouissance?

Belle, n'aie peur de cela,

Partout où sera ta demeure,

Mon ciel, jusqu'à tant que je meure,

Et mon paradis sera là.

JOACHIM DU BELLAY (1542)

junho 18, 2009

Poema para Gato

Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço;

Guarda essas garras devagar,

E nos teus belos olhos de ágata e aço

Deixa-me aos poucos mergulhar.

Quando meus dedos cobrem de carícias

Tua cabeça e dócil torso,

E minha mão se embriaga nas delícias

De afagar-te o elétrico dorso,

Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo

Como o teu, amável felino,

Qual dardo dilacera e fere fundo,

E, dos pés a cabeça, um fino

Ar sutil, um perfume que envenena

Envolve-lhe a carne morena.

Charles Baudelaire

junho 14, 2009

Epigrama de La Fontaine

La jouissance et les désirs 

Aimons, foutons, ce sont des plaisirs

Qu’il ne faut pas que l’on sépare;

La jouissance et les désirs

Sont ce que l’âme a de plus rare.

D’un vit, d’un con et de deux cœurs

Naît un accord plein de douceurs

Que les dévots blâment sans cause.

Amaryllis, pensez-y bien :

Aimer sans foutre est peu de chose,

Foutre sans aimer, ce n’est rien.

Jean de La Fontaine

junho 13, 2009

Espelhos ou janelas...


Teus Olhos

Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,

silêncio que fala,

tempestades sem vento, mar sem ondas,

pássaros presos, douradas feras adormecidas,

topázios ímpios como a verdade,

outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro

duma árvore e são pássaros todas as folhas,

praia que a manhã encontra constelada de olhos,

cesta de frutos de fogo,

mentira que alimenta,

espelhos deste mundo, portas do além,

pulsação tranqüila do mar ao meio-dia,

universo que estremece,

paisagem solitária.

Octavio Paz, in "Liberdade sob Palavra"
Tradução de Luis Pignatelli

junho 12, 2009

Beijo Eterno


Beijo Eterno

Diz tua boca: "Vem!"

"Inda mais!" Diz a minha, a soluçar...Exclama

Todo o meu corpo que o teu corpo chama:

"Morde também!"

Ai! Morde! Que doce é a dor

Que me entra as carnes, e as tortura!

Beija mais! Morde mais! Que eu morra de ventura,

Morro por teu amor!

 

Ferve-me o sangue: acalma-o com teu beijo!

Beija-me assim!

O ouvido fecha ao rumor

Do mundo, e beija-me, querida!

Vive só para mim, só para a minha vida,

Só para o meu amor!

Olavo Bilac

junho 11, 2009

Poema para Gatos

Poema  para  Gatos

Silêncio,

eis a tarefa

de todos os gatos.

Poucos sabem perscrutar

(talvez ninguém em plenitude)

o grau de solidão necessária

ao saber auto suficiente

para ser felino e doméstico

em sua tarefa de monge

guardião do inextricável

em quem o homem não percebe

a metafísica natural,

recolhimento

saber

sensualidade

e aceitação.




maio 18, 2009

AMOR DE TARDE



AMOR   DE  TA R DE

É uma pena você não estar comigo
quando olho o rel
ógio e são cinco
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e fa
ço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o rel
ógio e são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz
meros e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o rel
ógio e são seis
Voc
ê podia chegar de repente
e dizer "e a
í ?" E ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus l
ábios
voc
ê com o risco azul do meu carbono.

maio 04, 2009

Where true Love burns...

Where true Love burns

Desire is Love's pure flame

It is the reflex of our earthly frame,

That takes its meaning from the nobler part,

And but translates the language of the heart.

Samuel Taylor Coleridge